Em
O Primeiro de Janeiro

23 Sep 2022, 0:00

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Eduardo Lourenço

Por Alexandre Gonçalves

Voz de enorme e consensual fascínio. Admirável conversador, expressão envolvente e deslumbrante. Intérprete e personalidade maior, modestamente ofuscante. Consistência de pensamento.

Fulgor de inteligência, generosidade, imaginação e intuição. Olhar inquietante e ímpar. Vasta obra e elegante sentido crítico. Ironia e auto-ironia, tantos gestos, atitudes e palavras que proeminam no tempo.

A sensualidade de meditar e de interrogar a vida. Protagonista e narrador, debruçou-se sobre a própria existência. Liberdade e criatividade, harmonia e simetria interior. Abnegado sábio e notável cidadão.

Serviu e honrou a Pátria, intelectual que nos pensou. Extraordinária humanidade e pigmentados trajes de inquietude. Épocas, desvios e extensos itinerários, ludibriou a escravatura contemporânea. Interpretou Portugal, meditou a Europa e questionou o Mundo.

O significado das coisas e ver mais adiante. Morou no acto de escrever, inúmeras formas de viajar e amar. Patenteou outras realidades e aprofundou conspecções diferentes. Destapou, revelou e inventou emoções, em cima da minha mesa estão os seus livros.

Sentiu alegria na simplicidade e ofereceu-nos incalculáveis ensinamentos capitais. Construiu na perfeição, sem dependência ou submissão. Porto de abrigo, palavras ternas e francas. Emblema de libertação e fonte de inspiração.

A liberdade e a audácia de aparecer, a tranquilidade e a inquietude da mente. Gigante do pensamento português, tantas vezes galardoado e distinguido. O mais proeminente pensador da cultura portuguesa. Analisou o evidente e exigiu o incomum, irreverência no labirinto.

Enamorado pela literatura, referia-se aos livros como filhos. Homem de esquerda, franqueza e moralidade sem igual. Exigência e intervenção, doação de valores culturais e sociais. Ilustre interventor cívico, descerrou caminhos, combateu a ignorância e promoveu a literacia.

Distinta, interminável e encantadora capacidade oratória. Figura cimeira da cultura e do pensamento. Leitor assíduo e tanta produção investigatória. A história, a filosofia e as ciências sociais estão seguramente de luto.

A sublimidade do excesso, preocupação constante com a fragilidade do pensamento social. Tempo e Poesia, beirão de gema leal à língua materna. Caminhos de grande originalidade, múltiplos espaços de análise. Leituras decisivas de Pessoa e amigo de Sophia.

Colossal rosto da cultura, texturas de identidade. Conviveu com o sofrimento, e disseminou a cadência e a harmonia do seu cântico. Enfrentou a realidade no desconhecido. Sapiência que nos elucida e ampara.

 

 

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda

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