Invisual, Independente e Cativante

Por Alexandre Gonçalves*

Conheci a Rita há sensivelmente sete anos. A Rita estava a estender a roupa quando a vi pela primeira vez. Já tinha feito o almoço para os irmãos. Tem dois irmãos mais novos. Também tinha arrumado a casa, pois os pais levantam-se bastante cedo e trabalham longe. A Rita é invisual, independente, cativante, sonhadora e bonita. Frequenta o ensino superior e tem notas de excelência. Trabalha na Junta de Freguesia e já trabalhou no Hospital. A Rita é sinónimo de vida e de perseverança. Tem muitos sonhos e é uma lutadora. A Rita é de sorriso fácil, e gosta de fios e pulseiras. A Rita lia às crianças e aos alunos vários livros no sistema Braille. Fizemos centenas de leituras partilhadas. O primeiro livro que lemos nas Escolas foi “O Tesouro”, do saudoso Manuel António Pina. A Rita lê com os dedos e nunca se esquece da borracha. A máquina azul com nove teclas, o alfabeto Braille e as folhas brancas com relevo. As palavras nunca foram escritas na neblina, pois a Rita é um sol que irradia paz, conhecimento, cor e tranquilidade. O meu nome, escrito no sistema Braille, está guardado ao lado das fotografias de família. A importância da inclusão. A Rita nunca viu uma árvore, uma flor ou um pássaro. Nem tão pouco viu o rio, o céu, a montanha, o mar, o sol ou a chuva. No entanto, descreve-os na perfeição, de uma forma tão ou mais cintilante do que eu. Tem os outros sentidos muito mais apurados. Adora os animais e os animais adoram-na. Nas ruas da Vila onde reside, dispensa a bengala e nunca se atrasa. Iniciámos uma Antologia de Poesia no sistema Braille, ainda não a terminámos. Os dedos identificam as letras do alfabeto e os números. A Rita conviveu sempre com a superação, sendo um exemplo de que as limitações físicas não impedem ninguém de alcançar os seus objectivos. Hans Christian Andersen também nos ensina isso, honremos o legado que nos deixou. “O Soldadinho de Chumbo” e o “Patinho Feio” são dois contos, dos vários que o autor dinamarquês escreveu, que compõem esse importante legado. Infelizmente a Rita já sofreu episódios de discriminação, talvez essa conjuntura tenha sido importante para que a Rita se tornasse magnânima em todos os papéis sociais que ocupa. A Rita ama com o coração gigante que tem, não gosta de esparguete e gosta de batatas. A Rita gosta de sapatilhas e não gosta de botas. Gosta, tal como eu, de ouvir Jorge Palma, Rui Veloso, Zeca Afonso e Pedro Abrunhosa. A Rita tem os olhos no coração. É relevante compreender as subtilezas da natureza humana. A Rita é incapaz de recusar um desafio. É uma amiga que me ensinou tantas coisas. As acessibilidades e as políticas públicas inclusivas devem ser verdadeiramente promovidas e aclaradas. Não há Cidades Educadoras sem inclusão. As Escolas devem ser realmente inclusivas, parte do caminho ainda está por cumprir. A Rita, tal como as outras Ritas, não tem receio das mudanças, nem tão pouco de se reinventar. A Rita, tal como as outras Ritas, apenas precisa de oportunidades para ser ainda mais feliz. A Rita é muitíssimo feliz!


*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda 

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