Janelas Embaciadas

Por Alexandre Gonçalves*

A violência é sempre uma derrota. Objecto de investigação com carimbo mediático. Profundos impactos negativos nas vítimas. Estratégias de intervenção frágeis. A necessidade de identificar novas estratégias de intervenção. Estratégias de prevenção que se confundem com as estratégias de intervenção. Gritos de dor que chegam antes da própria dor. Sofrimento que se agudiza com o passar do tempo. A violência jamais é um destino que temos de aceitar. Infelizmente trata-se de um problema que ainda é socialmente aceite. A boca que ficou cortada e em ferida. O sorriso que desapareceu. O olhar desbotado. O corpo que caminha sem rumo. As nódoas negras escondidas pelas roupas de Inverno num dia quente de Verão. Os braços e as pernas que deixaram de ter força. Os olhos negros e inchados. A violência emocional que é tremendamente acutilante e poderosa. A maquilhagem que encobre o horror. A liberdade que apenas chega com a morte. A flores escuras no dia do funeral. Vontade impiedosa de controlar, humilhar e magoar a vítima. Embrulhos umbrosos em contextos de abuso. As vítimas que ainda se culpam. Relatos e telas de destruição. Os interventores da sociedade que assobiam para o lado. O entendimento adequado desta problemática está longe de ser uma realidade. O lar devia ser permanentemente degustado como um refúgio de intimidade e de privacidade. Lágrimas nos olhos que pedem para sair dali. Necessitamos de abordagens centradas nas vítimas que outorguem primazia aos seus direitos e opções. Elevados índices de medo, vulnerabilidade, confusão, inquietação, tristeza e choque. Crimes hediondos que ultrapassam a simples essência da opinião. Soluços de padecimento e tantos gritos mudos. Perder a identidade e conviver com as cantigas de morte. As palavras família e condescendência que teimamos em não soletrar. O destino desenhado em mapas rasgados e os incontáveis sabores sepulcrais. Indigna expropriação de direitos, vidas tão escuras. Sonhos desvanecidos e o tenebroso isolamento social. Actos que aumentam, ao longo dos tempos, de assiduidade, intensidade e perigosidade. Comportamentos perversos que são transversais a todas as classes sociais. Mata-se e morre-se entre quatro paredes e em plena luz do dia. O silêncio é uma arma para o agressor e, em tantas ocasiões, o único meio de sobrevivência para a vítima. As cicatrizes mais viscerais são precisamente aquelas que crescem do lado de dentro. As profundezas do inanimado. O vazio e o precipício. Os trajes homéricos não existem e os desfiles de texturas sádicas são uma realidade. Respirar em superfícies completamente agastadas. Criminosos que edificam o labirinto. O chão é gélido e sinuoso. Lugares destruídos que já não vão reflorescer. Inúmeros indicadores de ruína. Maltratar com consciência e a imposição de desejos. As noites perdidas e os golpes de espada. O tempo é incapaz de curar as mágoas. Paisagens embaçadas. Mãos sanguinárias que semeiam a morte. Vidas nas quais a alegria e o amor são apenas uma miragem. A crueldade é incessante e cada vez mais vigorosa. As janelas fechadas e os pensamentos acorrentados. Tantos rostos inocentes e já descrentes a fenecer. Acomoda-se a insensatez da intempérie. Ninguém merece morrer assim.

 

 

*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação

da Câmara Municipal da Guarda

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