O barulho das armas e o silêncio da consciência

NOVOS TEMPOS
Por Sérgio Carvalho

A atual conjuntura internacional tem sido descrita como o esboço de uma “nova ordem mundial”, marcada pelo regresso explícito da lógica das grandes potências e das esferas de influência. A centralidade política de líderes como Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin traduz um mundo onde a força económica, militar e tecnológica tende a substituir o direito internacional e o multilateralismo. A guerra na Ucrânia, a violência persistente na Terra Santa, as tensões em torno do Irão, a crise profunda da Venezuela — incluindo hipóteses de intervenção externa e de responsabilização forçada da sua liderança — bem como os cenários de pressão sobre Taiwan ou mesmo de anexação da Gronelândia, revelam um sistema global cada vez mais instável.

À luz da Doutrina Social da Igreja (DSI), esta evolução não pode ser lida como inevitável. Na Pacem in Terris, João XXIII afirmava que a paz autêntica só se constrói sobre a verdade, a justiça, o amor e a liberdade, e que nenhuma ordem internacional é legítima quando ignora a dignidade dos povos. A guerra, seja no Leste europeu ou no Médio Oriente, evidencia o fracasso de uma política fundada na dissuasão armada e no cálculo estratégico.

Paulo VI, na Populorum Progressio, afirmou que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Quando recursos naturais, rotas comerciais ou vantagens geopolíticas se tornam mais importantes do que vidas humanas, o bem comum universal é sacrificado. Também as disputas em torno de Taiwan ou da Gronelândia não são meros jogos de poder: nelas está em causa o direito dos povos a decidir o seu futuro sem coerção.

Bento XVI, na Caritas in Veritate, alertou que uma política desligada da ética se reduz a puro exercício de poder. E o Papa Francisco, na Fratelli Tutti, reforçou que a humanidade vive uma alternativa radical: ou escolhe a fraternidade ou mergulha numa sucessão interminável de conflitos.

Neste horizonte, a mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026 aponta um caminho exigente: uma “paz desarmada e desarmante”, que não nasce da imposição nem do medo, mas da conversão dos corações, do diálogo persistente e do reforço das instituições internacionais. Não se trata de ingenuidade, mas de realismo cristão: a violência gera apenas novas violências.

Perante esta encruzilhada histórica, que papel queremos assumir? Queremos permanecer espectadores resignados de uma ordem mundial construída pela força, ou cidadãos conscientes que exigem políticas internacionais justas, solidárias e humanas? A paz começa também nas escolhas bem informadas, na palavra crítica, na oração comprometida e na recusa de normalizar a guerra. A “nova ordem” só será verdadeiramente nova se colocar, no centro, a dignidade de cada pessoa e a fraternidade entre os povos.

 

Sérgio Carvalho, Professor e Jornalista

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