O sentido perdido do Natal

NOVOS TEMPOS
Por Sérgio Carvalho

À medida que dezembro se aproxima e avança, as cidades iluminam-se, os centros comerciais enchem-se e as decorações multiplicam-se. Contudo, por detrás de cada símbolo natalício — muitas vezes reduzido a um objeto decorativo — esconde-se uma história que nos convida a regressar ao essencial: a luz, a esperança e a proximidade que o Natal anuncia.

A árvore de Natal, por exemplo, não é apenas um ornamento festivo. Nasceu de antigas tradições do Norte da Europa, que celebravam a vida que resiste ao inverno. O cristianismo reinterpretou-a como sinal de esperança: uma árvore viva no meio do frio lembra que a vida de Deus floresce nas noites mais longas da humanidade. No topo, a estrela aponta a direção, como a Estrela de Belém que guiou os Magos — um convite atual a deixar-nos conduzir pela luz num tempo de tanta desorientação.

As luzes que decoram ruas e casas ganham outra profundidade quando lembramos que a liturgia do Advento anuncia Cristo como “luz que brilha nas trevas”. O que poderia ser apenas brilho comercial transforma-se em apelo a acender luz interior, a cultivar gestos que iluminam quem vive na sombra.

O azevinho, com as suas folhas espinhosas e bagas vermelhas, recorda que a alegria do Natal não ignora a dor humana. Simboliza simultaneamente a Paixão de Cristo e a vida eterna que vence o frio — lembrança discreta de que a esperança cristã não é ingenuidade, mas fidelidade à vida apesar das feridas.

A tradição da meia de Natal, nascida do gesto oculto de São Nicolau, devolve-nos ao valor da generosidade silenciosa, longe da lógica consumista. E até a bengala doce, inicialmente um simples cajado para recordar os pastores, nos remete hoje para o Bom Pastor que acompanha cada pessoa e que ao contrário é a letra «J», de Jesus com riscas brancas e vermelhas recordando o Deus encarnado no filho de Maria.

Particular relevo merece a Coroa do Advento: quatro velas que se acendem devagar, contrariando a pressa da época. É talvez o símbolo que mais claramente nos chama à interioridade: preparar o coração, fazer silêncio, criar espaço para que a luz cresça.

E, quase no final, os Reis Magos e os seus presentes — ouro, incenso e mirra — ensinam que o verdadeiro sentido do Natal é reconhecer quem é o Menino: Rei, Deus e Salvador. A sua viagem lembra-nos que também nós somos peregrinos em busca de sentido.

Quando redescobrimos o simbolismo destes elementos, percebemos que eles nos oferecem uma oportunidade preciosa: recentrar o espírito do Natal. Menos correria, mais encontro. Menos consumo, mais luz. Menos ruído, mais verdade. No coração da festa permanece a mensagem simples e transformadora: Deus vem ao nosso encontro e reacende em nós a esperança.

 

Sérgio Carvalho, Professor e Jornalista

 

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