Em
O Primeiro de Janeiro

27 May 2022, 0:00

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Rostos Suspensos

Por Alexandre Gonçalves*

O silêncio escuta e escolta a melancolia infinita. O futuro está cansado e sepultado numa porção de terra asfixiada, atónita e incógnita. Viver constantemente nas tempestades e percorrer sempre as estradas mais sinuosas não é um posto, mas sim um desgosto. Mergulhos trevosos e viagens tenebrosas que emudecem e estancam o sangue das nossas veias já por si temeroso. O solo está enlodado e deslustrado, mostrando dificuldade em sobreviver. Os sapatos de sola gasta enterram-se na terra que testemunha a nossa angústia e franzina condição.

Olhares desaparecidos, ligeiros e distraídos. Momentos perdidos numa flor pendida e desabrigada. A vaidade que desarma o talento e a solidariedade. Os corsários de alto-mar, os cabecilhas da quadrilha e os donos da alcateia. Corre, foge, morre ou esconde-te muito bem dos chacais. É difícil assassinar a nostalgia e a tristeza que carregamos no peito. O desfile amiudado dos mal-intencionados argumentos. Talvez estejam à nossa espera mais pedaços de gume e o fogo mais brutal. Um pai alcoolizado, uma mãe vendida e um filho extorquido. Premir o gatilho e os livros a arder. Pinturas de sangue e três tiros para matar. Rostos suspensos e rios cheios de sede.

Abraçamos razões descabidas e tantos campos de equívoco. As sombras ocas da noite. Anfiteatros tristes, vazios, sombrios e impregnados de repulsa. Crepitam açoites, escurecem as ruas e aumenta a tensão. Pedaços de alma que não conseguem escapar da masmorra. Vidas embriagadas e sem definição. Inexistentes trajes homéricos e reiterados cortejos de texturas sádicas. Vilões obcecados que, de discurso em discurso, entoam castigos e cantigas de morte. Subsistem as memórias de um tempo que já não temos. O espaço até ao fundo é tão exíguo. As sombras dilatadas do Inverno. A inflexibilidade e a crueldade do tempo. Viajar na periferia dos sonhos e da fantasia. Balançamos e caímos sem rede. Homens marginalizados que esperam pela “sopa dos pobres”. O significado distante dos verbos convergir e coexistir.

Negocismos em telas de ilusão. Paisagem descontente que teima em não variar. 

Bebemos gritos e assistimos a autênticas matanças. Trapézios de redes coladas ao chão. Publicações repletas de curvas apertadas. Chagas que magoam mais por dentro do que por fora. Famílias imersas em tempestades satânicas. A inclusão adiada e as cidades da cor do asfalto.

Exteriorizações que libertam odores putrefactos. Só nos desenhos animados é que o bem triunfa sempre. As configurações dúbias que incrementam o medo e o cansaço. Embarcar nas funduras do desencanto e do inanimado. O tempo é incapaz de sarar as inúmeras feridas profundas. Deslizar para o vazio que os escombros nos oferecem. A humanidade combalida e protelada. As rugas viscerais que desfilam no semblante dos jovens. Sociedade descartável e iníqua. Refúgios em lugares ermos que apenas têm janelos, tectos baixos, portas de madeira quebradiça, espantalhos e fatiotas desbotadas.


*Escritor e Técnico Superior na Divisão de Educação da Câmara Municipal da Guarda 

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