"Vamos cometer um erro histórico", diz Moreira sobre o Alta Velocidade

Reunido na manhã desta quarta-feira, o Conselho Municipal de Economia debruçou a reflexão sobre questões cuja narrativa o presidente da Câmara do Porto considera estar pejada de "mitos": a pertinência da alta velocidade entre Lisboa e Madrid, preterindo a ligação do Porto à capital, e a pressão turística na cidade. E, para isso, o Município apresentou números.

Sobre a ligação ferroviária entre as capitais ibéricas, Rui Moreira considera que "vamos cometer um erro histórico" uma vez que "o país está a trabalhar em opções estratégicas que não correspondem aos números objetivos da procura potencial".

De acordo com um estudo, "feito pelo anterior Governo" e já publicamente apresentado pelo ex-secretário de Estado Adjunto e das Infraestruturas, Frederico Francisco, "a procura estimada entre Lisboa e Madrid aponta para 1,5 milhões de utilizadores por ano. Quando olhamos para Lisboa-Porto, com as paragens previstas, o número é de 16 milhões de passageiros", a que acresce o milhão e meio estimado na ligação da Invicta à cidade galega de Vigo.

Na opinião do presidente da Câmara, "o país apaixonou-se pela ligação Lisboa-Madrid" e "a alteração de prioridades que parece estar a avançar não corresponde às necessidades". "Isto não é uma guerra Norte-Sul, é, mais uma vez, promover um elefante branco".

"É um vício que o país tem de tomar decisões com base em 'achómetros'. Quando a verdade não é conveniente, esconde-se", acusa o autarca.

Do lado dos conselheiros, a estratégia da alta velocidade entre o Porto e Lisboa é fundamental. André Magalhães, da ANJE, acredita que a ligação "vai fazer a inversão do paradigma de desenvolvimento regional que Portugal precisa", contribuindo para a "coesão territorial com o que está a norte do Porto e acaba por estar desprotegido porque o investimento não chega”.

Foi também números – os da demografia na cidade – que trouxe ao Conselho Municipal o vereador da Economia, Emprego e Empreendedorismo. Além de um crescimento de 2,4%, no ano passado, em matéria de população residente, Ricardo Valente mostrou como o peso diário dos fluxos pendulares – cerca de 140.800 pessoas – e dos turistas alojados – 14 mil – influencia as políticas a determinar, considerando uma população total de 403.600 pessoas que passam o dia na cidade.

Para Rui Moreira, "este estudo destrói alguns mitos", nomeadamente o de que a cidade tem excesso de turistas. Para o presidente da Câmara, a reflexão deve dirigir-se a outros números como os das crianças, que, vivendo fora do Porto, estudam nas escolas do concelho (cerca de 1/3), o que obriga "a pensar a cidade em termos de educação, mas também de mobilidade".

Relativamente ao turismo, Rui Moreira considera haver "um discurso desconstrutivo, contra os turistas, que é preocupante". Admitindo a necessidade de dispersão pela cidade, algo em que o Município já se encontra a trabalhar, o autarca considera fundamental "explicar às pessoas que os turistas deixam cá riqueza" e desmistificar "a ideia virtual de que é por causa do turismo que a habitação está cara".

"Há um discurso catastrofista que tem que ser contrariado através de explicações objetivas", reforça.

Sobre a perceção do excesso de turistas, o presidente da Associação Comercial do Porto lembrou que "com as obras, a cidade vive um momento particular, que dá a sensação de estar sobrelotada". "É preciso uma narrativa mais construtiva, não de agressão, mais amiga do turismo, da economia e do empreendedorismo", apelou Nuno Botelho.

No mesmo sentido, o presidente da Associação de Comerciantes do Porto, Luís Carvalho, espera que "não se diabolize o turismo, fundamental para as dinâmicas económicas da cidade". Ao mesmo tempo, concorda que o estado atual de obras no Porto "preocupa o comércio porque um micro negócio, que vive mês a mês, não tem fundo para se segurar seis meses, um ano, à espera que as obras terminem ou se concretizem as conversações para compensações".

 

Sem "posição de hostilidade" relativamente à construção das novas linhas de metro, que acredita que vão "resolver problemas de mobilidade, dar resposta ao turismo e diminuir dependência do transporte individual", o presidente da Câmara voltou a frisar o facto de a autarquia "não ter sido ouvida" em matéria de prazos e opções de projeto.

"São coisas feitas sem cronograma e com mentiras à população", acusa. Ainda assim, para Rui Moreira, "a questão que mais preocupa tem a ver com a Linha Rubi, cujo alcance as pessoas ainda não perceberam", nomeadamente por ter sido opção não considerar o transporte individual na nova ponte.

O presidente da Câmara alerta que isso "vai abrir a alavanca para que mais veículos frequentem a VCI", trazendo aquela artéria "uma sobrecarga", preocupação "unânime entre todas as forças políticas". "A cidade não tem capacidade para lidar com imposições de fora", sublinhou o autarca, afirmando que "a administração da Metro 'dá cavaco' a Lisboa e não à cidade".

Rui Moreira teme, por isso, que "corramos o risco de afogar a cidade por más decisões que são tomadas sem que possamos fazer nada".

Para Patrícia Teixeira Lopes, da Porto Business School, todas estas matérias, acopladas a políticas de economia, habitação ou segurança devem ser coordenadas com os olhos "fora do país" para potenciar a capacidade de atração da cidade, seja de investimento, seja de talento.

Da parte da Associação Empresarial do Porto, Lurdes Fonseca mostrou-se preocupada com a questão da "fuga de cérebros" em consequência da alta tributação nacional sobre o trabalho. "É praticamente impossível competir por mais elevado que seja o salário, por mais esforço que as empresas façam. E se o trabalhador não é recompensado, isso é um estímulo a sair do país".

De acordo com os dados apresentados pelo vereador da Economia, Emprego e Empreendedorismo, este "brain drain" devido à carga fiscal, que leva cerca de 20 mil licenciados a emigrar todos os anos, custa ao país cerca de dois mil milhões de euros.

"Gerimos ruas e cidades, falamos de investimentos físicos e temos um ativo intangível, as pessoas, para onde temos que olhar de forma mais direta", lembra Ricardo Valente.

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